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Metodologia de pesquisa

O trabalho central do GLIM é reunir relatos orais de italianos e descendentes de italianos no Brasil, buscando-se estabelecer um contato direto com a construção da italianidade no que diz respeito a discurso, memória, história e identidade. A abordagem metodológica escolhida para tal é a da História Oral, como detalhada por Meihy & Holanda (2007), mas também com referência em outros trabalhos, como os de Ferreira (1998), Matos & DeSenna (2011) e Weber (2013).


Seguindo-se, especialmente, o terceiro ramo da História Oral ‒ o da Tradição Oral ‒, o projeto se desdobra em entrevistas intencionais e semi-dirigidas, em que a palavra é, principalmente, do entrevistado e em que, todavia, o entrevistador pode intervir e atuar como guia, evitando-se assim afastamentos do tema. Contando com o trabalho de condução do entrevistador, a construção de narrativas durante as entrevistas presentifica o passado, estabelece pontes entre memória e história, entre o coletivo e o individual, e dá voz a “pessoas comuns”, a pequenos grupos e a grupos marginalizados e silenciados da sociedade. 

No início do projeto as  entrevistas foram gravadas em laboratório ‒ localizado na Cidade Universitária (Butantã) ‒ para garantir uma melhor captação de imagem e som. Em alguns casos, as entrevistas foram realizadas em outros locais. A partir de 2020, com as dificuldades impostas pela pandemia de Covid-19, foram utilizadas plataformas de teleconferência que permitem a gravação de áudio e vídeo. Os bons resultados obtidos levaram à avaliação de que se trata de mais uma opção de gravação, que poderá ser utilizada também em momentos posteriores. Isso será especialmente útil nos casos em que um encontro presencial na Universidade de São Paulo ou em outro local for especialmente difícil. É certo que há perdas na ausência de um contato pessoal que favorece o diálogo, mas a maior familiaridade com a tecnologia adquirida por um grande número de pessoas facilita a interação e ajuda a superar alguns dos limites da "distância".


Podendo ser feitas tanto em português brasileiro quanto em italiano, as entrevistas seguem um roteiro pré-estabelecido de perguntas, sem que isso implique uma limitação de tempo ou do escopo das respostas, sempre definidos pelos entrevistados. A vantagem para os membros do grupo e também futuros pesquisadores é que esse conjunto fixo de perguntas favorece a posterior análise e comparação das respostas. 


Com as entrevistas, como dito anteriormente, pretende-se traçar uma ponte entre as experiências individuais dos entrevistados e de suas famílias e a história contemporânea, buscando-se conhecer como essa história foi/é rememorada e interpretada por quem a viveu/vive, além de se procurar entender as dinâmicas estabelecidas entre a memória individual e a memória coletiva e refletir sobre a construção e a percepção de identidades, suas representações e suas relações com a memória e a língua. Para isso, as perguntas feitas abordam as origens familiares, a vinda ao Brasil e o início da vida aqui, o convívio com a sociedade brasileira, a manutenção e/ou o abandono da língua de origem, de tradições e de outros aspectos da cultura italiana, e as identidades italiana(s) e ítalo-brasileira(s). Além disso, o roteiro inclui uma pergunta sobre a leitura de periódicos escritos em italiano na residência dos entrevistados. 


Essa pergunta foi motivada pela contradição encontrada no confronto de dados relativos à migração italiana. A colônia italiana no Brasil, como indicam estudos sobre os processos migratórios italianos no país, era majoritariamente composta por agricultores e pequenos vendedores ambulantes, em geral analfabetos ou semianalfabetos (Hutter, 1986). Ao mesmo tempo, o estudo de Trento aponta para a grande relevância da imprensa em língua italiana no Brasil: segundo as pesquisas, nas primeiras décadas do século XX, o segundo jornal de maior tiragem em São Paulo, atrás apenas do Estado de São Paulo, foi o jornal italiano Il Fanfulla, o que levanta questionamentos sobre quem teriam sido seus leitores (Trento, 1989). Considerando-se essa problemática e as posições distintas adotadas por estudiosos em relação ao grau de instrução e às práticas de leitura dos migrantes italianos ‒ com algumas fontes indicando a existência de possíveis leitores (Vezzelli, 2015) ‒, os relatos dos entrevistados podem nos fornecer informações elucidativas a esse respeito.


No início de 2021, o grupo elaborou um questionário eletrônico dirigido a italianos e descendentes de italianos no Brasil, cuja ampla divulgação nos permitirá transpor os limites de São Paulo, alcançar um público maior e, assim, ter contato com uma maior diversidade de experiências e histórias da migração italiana. Contendo perguntas pontuais (sobre alguns dados biográficos dos respondentes, a região de origem da família, o período de vinda para o Brasil, a relação com a língua italiana, e as memórias familiares, por exemplo) e disponibilizando espaços para que os respondentes, caso queiram, acrescentem comentários sobre essas perguntas, o questionário permite, em primeiro lugar, que as pessoas compartilhem um pouco de suas vivências e contribuam com o trabalho do grupo ainda que não tenham meios, disponibilidade ou desejo de gravar uma entrevista. E, em segundo lugar, caso o respondente demonstre interesse em participar de uma entrevista, encontra no próprio formulário espaços para indicar sua disponibilidade de dia e horário e o canal pelo qual prefere ser contatado, facilitando-se, deste modo, o agendamento da entrevista. 


As entrevistas são posteriormente transcritas, catalogadas e analisadas. As transcrições se baseiam nas convenções detalhadas por Sacks, Schegloff e Jefferson em “A simplest systematics for the organization of turn-taking for conversation” (1974). Buscando-se um equilíbrio entre rigor e legibilidade da transcrição, priorizou-se o “nível verbal” e incluíram-se alguns dos elementos da oralidade. Enquanto marcas de oralidade como as sobreposições e, em certos casos, os truncamentos não foram, em geral, anotadas, traços como prolongamentos e pausas ‒ considerados fenômenos especialmente significativos para as análises que se tem realizado ‒ são evidenciados. Levando em consideração que o material com que trabalhamos é multimodal, reconhecemos que as transcrições podem ser realizadas em diferentes “níveis” e que não só outras características da oralidade, mas também elementos visuais ‒ como gestos e olhares ‒ poderão ser incorporados nas anotações, a depender dos objetivos de pesquisa. 


Além dos testemunhos orais, os migrantes italianos e seus descendentes podem compartilhar registros fotográficos e escritos ‒  como documentos, cartas e diários ‒, e, assim, contribuir com o enriquecimento do nosso arquivo. Por fim, através dos procedimentos aqui mencionados, o grupo busca estudar a migração italiana no Brasil, tendo como foco os protagonistas dessa(s) história(s).

Referências    

    FERREIRA, M. de M. Desafios e dilemas da história oral nos anos 90: o caso do Brasil. História Oral, [S. l.], v. 1, 2009. 

     HUTTER, Lucy Maffei. Imigração Italiana em São Paulo de 1902 a 1914. O Processo Imigratório. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 1986.     

     MATOS, Júlia Silveira; SENNA, Adriana Kivanski de. História oral como fonte: problemas e métodos. Historiae, Rio Grande, v. 2, n. 1, p. 95-108, 2011. 

     MEIHY, José Carlos Sebe Bom; HOLANDA, Fabíola. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007.   

     SACKS, Harvey; SCHEGLOFF, Emanuel A.; JEFFERSON, Gail. A simplest systematics for the organization of turn-taking for conversation. Language, v. 50 n. 4, p. 696-735, 1974. 

     TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século da imigração italiana no Brasil. Trad. Maria Rosaria Fabris e Luiz Eduardo de Lima Brandão. São Paulo: Nobel, Instituto Italiano di Cultura di San Paolo, 1989.

     VEZZELLI, Eugenia. A construção do ethos discursivo na imprensa em língua italiana em São Paulo: o caso de La Difesa. 2016. Tese (Doutorado em Língua e Literatura Italiana) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

     WEBER, Regina. Estudos sobre imigrantes e fontes orais: identidade e diversidade. Revista História Oral. v. 16, n. 1 (2013), p. 5-22. 
 

     
 

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